Judoca Nuno Delgado é ‘Fantástico’!

29 Mar 2018

O atleta medalhado olímpico sente, desde há dez anos, que a sua vocação passa por formar campeões para a vida.

 highspirit – Como é se iniciou no Judo?

Nuno Delgado Fui desafiado pelos meus pais, porque na altura eu era uma criança muito activa, tinha excesso de actividade até. Entre várias coisas lançou-se o desafio de começar a fazer uma modalidade que me trouxesse alguma concentração, algum auto-controlo, e assim foi. Aos 7 anos fui à Casa do Benfica de Santarém e pela primeira vez experimentei judo e foi paixão à primeira vista.

 

HS – Gostou desde logo da modalidade…

ND O primeiro treino foi uma experiência única e aliás, é uma experiência que eu revejo muitas vezes nos meus primeiros alunos, iniciantes da modalide, porque o judo é um local especial. Quando fazemos a saudação e entramos para este novo ambiente que há aqui no dojo, para além da actividade física em si e da possibilidade de darmos cambalhotas, rebolarmos e saltarmos sem nunca nos aleijarmos em cima destes tatamis, há também um conjunto de valores que são transmitidos através do mestre como o respeito pelo outro e o saber interagir e cooperar. Todas estas oportunidades despertam um grande interesse por parte das crianças e dos jovens, como foi o meu caso.

 

HS – Fazer uma vida ligada ao judo foi algo natural?

NDFoi um processo em construção. Primeiro, o prazer de treinar judo, de evoluir e de estar em comunidade com os meus colegas e poder ser protegido pelo meu mestre e pela sua autoridade, pelo seu carinho que partilhava com os alunos, é uma primeira etapa. Mais tarde surge a competição e o desafio de me por à prova e de umas vezes ganhar e outras perder, mas ter o gosto pela competição e pela superação. Foram etapas que me aproximaram cada vez mais do judo. A minha formação académica também é na área das ciências do desporto e no final da minha carreira esperava-se naturalmente um percurso desportivo ligado ao judo, e assim aconteceu.

 

HS – Como é que surgiu a possibilidade de participar nos Jogos Olímpicos?

ND Os Jogos Olímpicos eram um sonho de criança, que estava longínquo na minha mente mas sempre presente nos meus objectivos diários. E com a vinda para Lisboa e o ingresso no Sport Algés e Dafundo, que foi o segundo clube que representei, começo a ter contacto com atletas que já tinham estado nos Jogos Olímpicos, começo a treinar de uma forma mais regular com a Selecção Nacional e ao fim de algum tempo começo a ter resultados de dimensão internacional. Tudo isso me fazia começar a acreditar que o sonho não era assim tão longínquo. Em 1999, conquisto o Campeonato Europeu, que foi um feito inédito na altura para Portugal, e realmente é aí que começo a assumir que esse sonho se podia tornar realidade e começo a preparar-me para estar nos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000, pronto para lutar por essa ambicionada medalha.

 

HS – Lembra-se do que sentiu ao competir pela primeira vez nos Jogos Olímpicos?

ND Só por si, estar nos Jogos Olímpicos e poder ter essa honra de representar Portugal nessa grande competição é já o concretizar de um sonho. Contudo, apesar de sentir isso, a minha intenção ao estar em Sidney tinha um objectivo muito concreto, que era fazer aquilo que eu já tinha dado provas que poderia fazer e que passava por avançar o máximo possível na prova e estar a disputar o pódio. Felizmente esse foco manteve-se e consegui abstrair-me, por alguns dias, de toda a experiência fantástica que é a estreia nuns Jogos Olímpicos e focar-me naquilo que eu estava habituado e preparado para fazer que era uma competição de judo ao mais alto nível.

 

HS – Quais os títulos e medalhas que destacaria como os mais importantes ao longo da sua carreira?

ND Se tivesse que destacar medalhas da minha carreira, claramente destacaria o meu primeiro título nacional, com 13 anos. Aconteceu nestas instalações onde estamos, aqui na Estrela, e curiosamente agora são também as instalações que albergam o dojo da minha escola. O primeiro título é sempre especial, ainda que depois desse tenham surgido outros títulos nacionais. A minha primeira prova internacional, que foi em Girona, em Espanha, e que ganhei, foi muito relevante para mim porque foi a primeira vez que estive à prova com atletas de outros países numa prova com alguma dimensão. Numa estreia, vencer, é sempre um voto de confiança importantíssimo. Mais tarde, entre várias outras participações, destacaria também o Campeonato Europeu de Júniores onde me classifiquei em quinto lugar mas venci o campeão do mundo em título… foi mais um momento que me fez crescer e sonhar mais alto. Em 1999, como disse, fui campeão europeu e em 2000 conquistei a primeira medalha para o Judo nacional nos Jogos Olímpicos de Sydney. Fomos também ainda campeões europeus por clubes, por uma equipa que eu passei a representar chamada Abensberg, na Alemanha, sedeada perto de Munique. Destacaria ainda mais um título de equipas que foi a Medalha de Prata que conquistámos para Portugal no Campeonato Europeu de Equipas. Entre outros títulos, destacaria talvez o último que obtive, que foi em 2004, de Campeão Nacional e que fechou assim a minha participação em provas portuguesas, com o último título português.

 

HS – Depois de todo este percurso, como surge a Escola de Judo Nuno Delgado?

ND A Escola de Judo Nuno Delgado surge num paradigma da minha vida. Após a desilusão da minha presença em Atenas, que eram uns Jogos onde tinha grandes expectativas de perseguir o título olímpico, surge-me o dilema de ter de decidir qual o próximo passo a dar. Uma das grandes hipóteses seria continuar o percurso olímpico e fazer carreira até Pequim 2008 ou iniciar uma nova fase da vida, uma nova etapa, mas que, seguramente, teria de ser tão aliciante como aquela que vivi até então. Também com a ajuda de algumas lesões e nomedamente uma lesão na coluna que me impediu de estar na forma que eu desejava, tive um ano em que comecei a desenvolver alguns projectos pessoais. Um projecto de comunicação com um site, um projecto de uma marca de roupa e de equipamentos de judo e finalmente uma escola. Uma escola de judo feita à minha medida, com as minhas ideias e com aquilo que eu acreditava que estava a faltar aqui no nosso universo português. Esse projecto foi ganhando dimensão e carinho ao ponto de no ano seguinte eu ter optado por virar as costas à alta competição e dedicar-me em exclusivo a este projecto que tem uma missão muito concreta que é formar campeões para vida.

 

HS – Quantas crianças passam pela escola?

ND A escola tem cerca de 30 centros que funcionam em regime de parceria com outras entidades. Temos regularmente cerca de 900 crianças que são nossos sócios e treinam regularmente connosco. Para além disso, ao longo do ano abarcamos mais de 3000 crianças em projectos educativos com as escolas. Projectos que são gratuitos, e que fazemos com municípios como Lisboa, Amadora, Aveiro, Porto… No fundo, ao longo do ano, movimentamos cerca de 4000 crianças e jovens que podem chegar, neste momento, aos 50 anos. Estamos a tentar arranjar jovens atletas mais experientes, mas neste momento os nossos atletas mais velhos estão na casa dos 50. Todo este trabalho desenvolvido tem por base o programa de desporto para todos do Instituto da Juventude e Desporto, entre outros parceiros importantes que trabalham connosco.

 

HS – Que conselhos deixaria para quem quiser experimentar judo e iniciar esta modalidade?

ND Em primeiro lugar, há que experimentar. O judo, acima de tudo, faz-se praticando e por isso é que nós tentámos oferecer este modelo desportivo em que pudéssemos chegar a mais pessoas nos vários escalões etários e abraçar também o desporto feminino, o judo feminino. Temos também oferta para pessoas com necessidades especiais e aulas para adultos. Para mim, o grande primeiro passo é vir experimentar e desde já deixo esse convite. Depois de experimentar, é obviamente tentar superar os seus limites. O judo desafia-nos a conhecermo-nos melhor e a compreendermos as nossas forças e as nossas fraquezas e isso é um desafio que está ao alcance de qualquer um.

 

HS – É fácil incutir nas crianças esta vertente mais psicológica?

ND Fácil não é, é um trabalho diário. Na vida nada é fácil se não for feito com muito boa vontade e muito prazer. Moldar um jovem, uma criança ou um cidadão é algo que perdura para toda a vida e portanto obviamente que não é um trabalho fácil. É um trabalho que assumimos com responsabilidade e que não fazemos sozinhos, são várias entidades que trabalham em conjunto para que todos, juntos, possamos fazer uma sociedade melhor.

 

HS – Qual é o seu highspirit?

ND O meu highspirit é estar sempre de espírito positivo para procurar novos limites, novos desafios. Estar sempre pronto a aceitar novos desafios que me movimentem e me façam dar o meu melhor. Sou uma pessoa muito positiva e gosto de aceitar desafios, às vezes até um bocadinho de uma forma arriscada, mas gosto de estar presente sempre que há desafios.

 

HS – Porque é que Somos Por Todos?

ND No judo costumamos dizer que há uma máxima que é “benefício mútuo, prosperidade para todos”. Nós, no judo, só podemos praticar se existir o outro e o espírito de solidariedade é quase uma condição humana. Ninguém consegue viver sem ter o outro consigo, portanto esse é um espírito que está no judo e que partilhamos com o highspirit também.

 

 

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